Chegou um dia da escola meio frustrado, cara fechada e com um ar de indignação. Devia ter uns 8 anos na época e foi falando com pesar: “Eu sou a única criança na minha sala que não tem celular”. Compadecida eu disse: “Nossa filho, que triste! Você quer um abraço?” Pode parecer engraçado, mas crianças gostam de consumir. E sabendo disso o mercado se aproveita, e muito!
As pessoas não nascem consumistas. Mas a ideologia do consumismo estimula a todos que entram em contato com as mídias de massa. Crianças em especial são mais vulneráveis ao estimulo de consumir de modo inconsequente e infelizmente são afetadas pela erotização precoce, obesidade, trivialização da violência e consumo de drogas como álcool e tabaco, dentre outras.
Uma pesquisa realizada pela TNS (Inter Science outubro 2003), empresa britânica que atua em pesquisa de mercado, revelou que no Brasil as crianças influenciam até 80% das decisões de compra da família, opinando sobre alimentos, carros, eletrodomésticos, roupas etc. Além disso, elas são constantemente cerceadas por comerciais de produtos infanto-juvenis nos intervalos de seus programas favoritos. De fato, crianças brasileiras estão entre as que mais assistem TV segundo dados do Painel Nacional de Televisão do IBOPE (2015), chegando há quase 6 horas por dia entre as idades de 4 a 11 anos. Além de serem impactados pela complexidade das relações de consumo, os consumidores mirins são fidelizados por marcas e pelo estilo de vida consumista.
O Instituto Alana que desenvolve o Programa Criança e Consumo alerta que mais do que uma questão familiar e social, o consumo irresponsável contribui para o desequilíbrio ambiental global. As crianças também não possuem uma clareza sobre o valor do dinheiro. Cores, embalagens e brindes chamam a atenção dos pequenos e movimenta um mercado de cerca de 50 bilhões de reais segundo dados do instituto. Visando minimizar prejuízos que a comunicação mercadológica traz ao meio ambiente e ao bolso dos pais, o programa criou a Feira de Trocas de Brinquedos, na qual a criança pode refletir sobre o consumismo e ressignificar os próprios brinquedos. Afinal, crianças consumistas serão adultos consumistas.
Pais que desejam inibir o consumismo nos filhos devem começar avaliando o próprio comportamento e atitudes diante das compras, pois as crianças imitam constantemente seus pais. Comprar coisas não pode preencher necessidades emocionais, consolar da ausência (dos pais que trabalham) ou aumentar o valor pessoal de ninguém. Tudo isso deve ser discutido claramente. Também é importante controlar o tempo de exposição a mídias com TV e computador e sempre conversar sobre as propagandas assistidas nesses veículos de comunicação, determinando o que pode ou não pode ser adquirido pela criança. Limites são importantes para minimizar a ansiedade por compras e gerar hábitos de consumo mais saudáveis. Vale lembrar que doar roupas e brinquedos auxilia no desapego dos bens materiais e que atividades que não incluam brinquedos industrializados podem divertir bastante, aumentar a criatividade e promover a convivência familiar.
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